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aprendiz

fosse um misto de insegurança e certeza, nem isso. aquilo era torpor cego, loucura. personagem comandava certeiro e brotava em cada linha mal feita, em cada palavrão dito enquanto ele dormia. determinada a fechar aquele ciclo digitava calada e faminta pelo verbo. no trigésimo nono capítulo, não era Carlos que pulava a janela e sim a realidade nua, violenta e sem alegorias, aprendia com ela.

ampulheta

via as vidraças sujas, mas não queria limpá-las. não era preguiça, tinha mais a pensar, tantas páginas para escrever, tanto o que expressar. as teclas sonoras entoavam uma canção antiga, enquanto a luz tentava passar pelo vidro. voltar o tempo é impossível, mas é o que mais desejamos. não seria mais coerente tentar pensar e aproveitar melhor o presente, para que no futuro essa sensação de querer voltar o tempo não seja tão latente?

infâmia

a lembrança do corpo afundando no rio ia e vinha, como o próprio movimento do defunto. era branco, jovem demais e passou dos limites, antes que o matassem. ela quase ria, era mesmo uma vingança crua. o olhar de Carlos era único, não era remorso, não era rancor, de certa forma ele submergira com o morto. parecia guardar o universo na retina funda e negra, feito a água naquela noite de lua minguante.

símios

enfim conseguiu chegar ao fim, eram os últimos capítulos. há quem não tenha noção desses ciclos que permeiam a existência. um assassino deveria saber que matar uma pessoa é difícil, imensamente difícil, até porque o golpe proferido é o mesmo e de igual proporção ao que lhe atinge, fere e castra, no mesmo momento que mata. e essa dor vai e volta, no mesmo lugar, como vinil sujo. ela podia dizer que se defendeu, que fora vítima dele incontáveis vezes, mas ser vítima é melhor que ser igual ao agressor, ou não? já não sabia dizer se era culpa ou redenção. a lembrança do morto era a coisa mais nítida que tinha em si. mas depois que uma pessoa morre em seu coração, não tem mais volta, não tem.

metafísica

sua voz grave insistia em chamá-la, enquanto sentia seu membro rijo entre os dedos, desejava que eles passeassem debaixo do vestido, afastaria a renda delicada da calcinha para sentir o quanto ela estava molhada, apenas vislumbrar a cena o conduziria ao gozo. Carlos não estava ali e ainda habitava seus poros, lembranças e entranhas. os pensamentos dela eram iguais aos dele, então abriu as pernas e com dois dedos penetrou-se com força, várias e continuadas vezes. a lembrança dele chamando pelo seu nome não seria o bastante, não hoje.

buraco negro

datilografei mais de cem páginas perseguindo um personagem que tentei manter à distância. tarde demais, já era um objeto em órbita de colisão sem escape, atraída de volta à região de onde fora gerada. poderia me perder no céu de sua boca, feito o sentido das palavras voltadas à verborragia incrédula de quem não crê em semiótica. no trigésimo quarto descobre que nem as estrelas vivem para sempre e que perdera por completo o controle da situação, encontrava-se em colapso caindo sobre si mesma.

retroescavadeira

não há discernimento em autobiografias, era melhor falando dos outros. propaganda enganosa é o falar de si, pura e simples propaganda enganosa, pensava. Carlos morto explica-se melhor que ela. olhava para ele como quem observa um detento, sabia que não gostava de ternos, dizia que sempre o apertam em algum lugar, mesmo os feitos sob medida. desconhecia o terno e quando eclodia em sua alma perturbada, internava-se. sabia mais dele do que de si.