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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

cochilo

agora ele dormia o sono dos justos e ela o observava com a atenção redobrada. bem que poderia escrever sobre ele, como duvidava de sua retidão e como ele duvidava de sua sanidade. poderia contar da suavidade que sustentava naquele corpo magro e infame, o quão obscenas eram as palavras que ele proferia ao pé de seu ouvido. não era um homem excepcional e nem se considerava como tal, não era sofisticado e estava bem adaptado ao meio que vivia. mas se fosse definir seus predicados deveria esconder os escritos dele. Carlos não era uma pessoa fácil e não aceitaria o estereótipo de qualquer personagem.

móbile

os olhos brilhavam, ele bailava num ritmo próprio quase alucinado revirava-se. ou seria apenas o vento, um frescor sob sua armação? erguia o queixo para o alto como se orasse, mas só conseguia aquela expressão quando me ouvia gemer depois de ser currada, a minha dor soava redenção. no nono capítulo, ela revelava toda honra e toda glória ao deus príapo. Carlos esquecia-se de suas dores e tornara-se Dom Quixote queimara todos os moinhos de vento, galopava e gozava sobre sua Dulcineia.

simetria

todos eles se comportam assim em algum momento, fogem dos sentimentos, como Hemingway fugiu. de certo modo preferiu enfrentar a guerra. encarar outros homens armados parecia mais justo e menos complicado que olhar nos olhos de uma mulher. aquela retina tinha o mesmo peso de mil trincheiras. quantos já foram colocados contar a parede e fuzilados sumariamente por olhos mais gentis que os dela.

asas

por um momento olhou em volta, esquecendo-se do passado e nem confabulando um possível futuro. vislumbrou a luz que invadia a fresta entre as cortinas cansadas. as partículas de poeira pairavam sem culpa e caiam sobre o rosto de Carlos. ela sorria pela simplicidade da cena, ele jurava que o olhar dela era por amor, eu sei que é só a fumaça de cigarro, sol e poeira.

digressões

era mais que trabalho, a máquina de escrever, o barulho, o ritmo frenético das teclas, o cigarro aceso entre os dedos ocupados iam se tornando prisões para os dois. entre letras e paródias trágicas ela construía seus personagens, sua vida e se sabotava nas entrelinhas. ele era um xucro, mas conseguia rastreá-la nas pequenas atitudes. ambos eram arrogantes obstinados, atentos e criavam distâncias que brotavam entre rotinas solenes.

porta-retrato

sim, aquela era a melhor lembrança que trazia dele, um sorriso exposto sobre a estante empoeirada da sala. era um troféu do fracasso de sua mãe de mantê-la protegida de seus amantes, depois que o pai foi embora. nada flutuava quando os três dividiram por meses aquele maldito quarto e sala. o sorriso era denso, quase sem falhas, não fosse aquela pequena ruga dissimulada que erguia-se no canto esquerdo da boca. tentou fugir, mas ele descobriu o novo endereço e não deveria ter voltado a importuná-la. foi aquele rosto que a esfaqueara, aquele mesmo corpo que ela fez questão de alvejar por duas vezes, sem nenhuma piedade.

febre

a exatidão das coisas tirava-lhe o sono, e mesmo sem que percebesse estava presa num labirinto lógico, que negava, para no fim cair nas mesmas saídas óbvias de sempre. reverenciava os Best Sellers, os romances baratos em grandes volumes, vendidos em bancas de revistas, mas não conseguia aquilo que julgava maior e digno, escrever algo para ser lido com facilidade. queria o fervor das putas, ser vendida em todas as esquinas e em qualquer canto que a desejassem, mas era covarde demais para isso, então escrevia.

a ilha

  havia uma certa zona de conforto enquanto se esqueciam da friagem que trazia o corpo. naquela noite, depois de tudo que passaram, ambos sucumbiram ao silêncio e se tornaram ilhas de um mesmo arquipélago. a letargia era um sentimento novo e hora ou outra aprenderiam lidar com ele.

expiação

amarrou pernas e braços, reforçando a condição eterna de subjugada. a boca deixou solta, pois já não importava mais o que ela dissesse, eram só palavras de um serzinho magoado e isso o divertia. reclusa não chorou em nenhum momento ou implorou pela liberdade, não daria a ele essa satisfação. vieram os outros e por falta jogaram pedras, é fácil ser pedra.

quase Hemingway

isso foi só no começo, enquanto escrevia os oito capítulos iniciais. eram sensações ruins, não sabia bem se era ficção ou romance. alucinada, vomitava um monte de palavrões. dizia: "Carlos, continue batendo!". e ele respondia: "comprei botas novas!". depois de boas surras eu fumava um pouco, esmurrava a porta do mobilhado e caía no sono. aquelas coisas continuavam brotando da minha boca, a violência era atraente para nossos corações atormentados. ele era parecido com Hemingway, quem sabe um pouco melhor. abri a gaveta do meio e puxei o porrete, guardado embaixo das calcinhas e bati nele com toda força, “enfia no rabo, com querosene e coloque fogo, honey!”

Prefácio: Aluisio Martins Rodrigues

 Fragmentos do Ciclo dos Símios Larissa Marques “Não era tanto pelo fato de mentir, mas porque não havia verdades a dizer.” (Ernest Hemingway, As Neves do Kilimanjaro)  Carlos não matou o espadarte gigantesco. Carlos não escalou o Kilimanjaro. Não dançou salsa em Cuba nem fez os sinos se dobrarem. Carlos não é Ernest Hemingway. Mas Carlos e Hemingway têm algo em comum: ambos são símios. À revelia da Santa Sé, despudoradamente, ainda que em derredor de qualquer esfera científica que engendre a vã empreitada de atraí-los aos limites do círculo. Hemingway e Carlos não podem ser encarcerados na redoma de vidro, à mercê dos olhos imóveis, perscrutadores, dos PhD de plantão e seus óculos e seus alvíssimos jalecos. Há volume demais, volume etéreo, diáfano, contraditório como a existência. É impossível escrutar a existência, substância amorfa, indócil, em constante motim. Fragmentá-la, como nos mostra a narradora-personagem de “Fragmentos do Ciclo dos Símios”, é tarefa exequível, desd...

Prefácio: Carlos Cruz

“Não era tanto pelo fato de mentir, mas porque não havia verdades a dizer.” (Ernest Hemingway, As Neves do Kilimanjaro)  Carlos não matou o espadarte gigantesco. Carlos não escalou o Kilimanjaro. Não dançou salsa em Cuba nem fez os sinos se dobrarem. Carlos não é Ernest Hemingway. Mas Carlos e Hemingway têm algo em comum: ambos são símios. À revelia da Santa Sé, despudoradamente, ainda que em derredor de qualquer esfera científica que engendre a vã empreitada de atraí-los aos limites do círculo. Hemingway e Carlos não podem ser encarcerados na redoma de vidro, à mercê dos olhos imóveis, perscrutadores, dos PhD de plantão e seus óculos e seus alvíssimos jalecos. Há volume demais, volume etéreo, diáfano, contraditório como a existência. É impossível escrutar a existência, substância amorfa, indócil, em constante motim. Fragmentá-la, como nos mostra a narradora-personagem de “Fragmentos do Ciclo dos Símios”, é tarefa exequível, desde que se tenha a coragem, o desprendimento, a paixão ...